Porque entro nessas roubadas???
Parte 1 – Sisco TV3000: o terminal burro que já foi protagonista da computação brasileira
Você já olhou para uma peça antiga de tecnologia, meio amarelada, pesada, com cheiro de eletrônica velha… e pensou:
“Eu PRECISO disso!”
Pois é. Foi assim que eu me vi dono de um terminal burro Sisco TV3000, uma máquina que muita gente nem sabe que existiu, mas que por anos foi a janela de entrada para alguns dos sistemas mais importantes do Brasil.
O que é um "terminal burro"?
Apesar do nome politicamente incorreto, o termo “terminal burro” é técnico. Ele designa um dispositivo que:
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Não tem sistema operacional próprio
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Não armazena programas
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Não processa comandos complexos
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E só funciona conectado a um computador central, via cabo serial
Na prática, ele serve como entrada e saída de dados. Você digita comandos nele, e o computador central (chamado de “host”) faz todo o trabalho pesado: processa, calcula, armazena, gera relatórios. O terminal só exibe o resultado e te escuta.
É como se o terminal fosse a recepcionista muito eficiente, que anota o recado e entrega para o chefe. Ele não resolve o problema, mas sem ele, nada acontece.
Burro? Nem tanto.
O Sisco TV3000 tem, sim, um pouco de inteligência embarcada. Ele possui um processador Intel 8080, um clássico dos anos 70, que serve para interpretar comandos simples vindos do computador central — como “posicione o cursor na linha 12, coluna 5”, ou “mude o texto para negrito piscante”.
Ou seja, ele não é burro como uma pedra. Ele entende instruções de terminal. Mas só isso.
E de onde veio essa joia?
Esse terminal não surgiu do nada. Ele foi desenvolvido pela SISCO – Sistemas Computacionais, uma empresa brasileira que fez história ao criar o SICO Sistema 10000, um clone nacional dos minicomputadores americanos da Data General.
Esses minicomputadores foram largamente usados no Brasil em órgãos públicos, hospitais, bancos, cartórios, laboratórios, faculdades e empresas privadas.
O SICO Sistema 10000 rodava um sistema operacional próprio e um dialeto brasileiro de COBOL chamado BLIS/COBOL — uma linguagem de programação voltada a negócios, muito usada para criar sistemas de contabilidade, folha de pagamento, cadastro de clientes e relatórios administrativos.
O terminal no mundo real
Imagine a seguinte cena, lá pelos anos 80:
Você entra no setor de cadastro de um hospital público. Tem uma fileira de terminais Sisco TV3000 enfileirados, cada um com um funcionário digitando comandos em letras maiúsculas, teclando com firmeza, respondendo a perguntas na tela como:
NOME DO PACIENTE:
DATA DE NASCIMENTO:
CONVÊNIO:
E tudo isso rodava em tempo real, com base no que o minicomputador no centro de dados estava processando. O terminal apenas exibia as instruções e registrava as respostas.
Mas por que eu comprei um?
Boa pergunta.
Porque o retrocomputadorismo é isso: uma mistura de curiosidade histórica, paixão por tecnologia antiga e uma certa dose de insanidade.
Quando vi um Sisco TV3000 à venda — com sua tela de fósforo branco, teclado integrado com aquelas teclas grandes e quadradas, conectores DB25 e um ar de autoridade retrô — eu soube que não podia deixar passar.
E agora, ele está aqui. Piscando. Esperando um comando. Pronto pra exibir uma interface de sistema que não roda há mais de 30 anos.
E o que ele faz hoje?
Tecnicamente? Nada.
Historicamente? Tudo.
Ele é um monumento silencioso da história da computação nacional.
Um símbolo de uma era onde o Brasil fabricava seus próprios sistemas, criava seus próprios dialetos de COBOL, e fazia a tecnologia rodar sem internet, sem nuvem, sem mouse — só com texto puro, binário, seriedade e criatividade.
E se hoje ele não processa mais as folhas de pagamento de um hospital municipal, pelo menos ele serve para algo ainda mais nobre:
me lembrar que nem toda tecnologia precisa ser útil — basta ser fascinante.
A seguir...
Na Parte 2, vamos explorar com mais detalhes as características técnicas do Sisco TV3000, suas funções, seu funcionamento interno e por que ele é muito mais interessante do que parece à primeira vista.

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